
Vou colocar aqui hoje algumas coisas que penso relacionadas ao assunto mulher e filhos. Pensamentos que ressurgiram na minha cabeça por conta do tema aborto, que rodou as agendas das campanhas eleitorais nesses últimos dias. Começo logo assim, portanto: sou contra o aborto, mas a favor da descriminalização. É uma questão de saúde pública e o papel do estado é cuidar dela, me faça o favor. Aliás, tenho até preguiça de entrar em um assunto tão batido. Pulemos. Quero falar sobre coisas que sinto na pele como mulher, 36 anos, mãe de dois filhos, um garoto de 3 anos e uma menininha de quase 3 meses, uma graduação, uma especialização, um mestrado, dez anos de carreira publicitária, dois como professora universitária e exatos três anos e quase três meses fora do mercado de trabalho. E, amigos, nada aqui nessa situação é fácil. Nadinha mesmo. Existem situações mais difíceis, sem dúvida. Mas poucas reúnem em si um grau tão significativo de dificuldade e naturalidade quanto a maternidade. Agora simplificando, só por uma questão de comunicação, pois o assunto é dos mais complexos: ser mãe é uma das coisas mais natural e difícil ao mesmo tempo para a mulher. E o que eu mais escuto hoje nas rodinhas de conversas de mães é a frase: “mas você imaginava que era assim?”. Olha, parece sempre que ninguém imaginava. E nos atiramos às perguntas óbvias do gênero “o que será que aconteceu?”, “não parecia ser tão complicado para minha mãe”, entre outros questionamentos do mesmo tipo. O que sentimos (e falo pela totalidade das mães que eu já tive oportunidade de trocar figurinhas) é que sofremos de uma exigência desumana da sociedade justamente quando estamos numa fase em que nos doamos completamente, muito mais do que recebemos, a nossos pequenos rebentos que tanto precisam de nós. Talvez essa seja a diferença em relação a nossas mães, avós, etc. Além de mãe, nos esperam bonitas, interessantes (com mais assuntos que não sejam apenas troca de fraldas e mamadas), e independentes emocional e financeiramente. Sim, é isso mesmo. A mulher de hoje que quiser se lançar na aventura materna deve ter em mente que não trocará, apenas acumulará novas funções em mais um papel a desempenhar. A pergunta é: e o que se há de fazer? Duvido muito que alguma mãe que gosta da sua carreira esteja disposta a abrir mão dela pela maternidade. Duvido também que seja do desejo da maioria das mulheres bem sucedidas não ter filhos. Queremos ter filhos, carreira e um corpinho esbelto no pós-parto, sim senhor. Esperamos compreensão dos maridos e amigos. Claro que sim. Mas queremos mesmo dar conta de tudo, pois é assim que nos sentimos bem nos tempos de hoje. Não quero entrar no mérito dos motivos, ou em análises de comportamentos contemporâneos. Quero entrar no mérito do que pode ser feito. Li recentemente uma matéria de um psicanalista (não lembro quem) dizendo que precisamos ter uma boa dose de auto-conhecimento para sermos sinceros na hora de optarmos pela maternidade. Ele dizia que não faz parte do desejo de toda mulher ser mãe e que isso deveria ser mais respeitado pelo indivíduo a fim de melhorarmos o mundo gerando menos adultos problemáticos, frutos de uma infância mal amada, por exemplo. Concordo. Mas essa é uma luta individual de cada mulher com sua cultura. Para quem se descobre sem vocação para a maternidade as coisas ainda não são simples, mas provavelmente bem mais fáceis do que para aquelas que sentem o desejo de ser mãe sim, mas querem também ter uma carreira, uma vida social ativa e uma vida financeira independente. Não precisa dizer que, pela minha observação empírica, esse perfil se encaixa na grande maioria das mulheres. Aproveitando o período das eleições, aproveito para dizer que para mim, a questão da nova situação da mulher na contemporaneidade faz necessária a reformulação da mentalidade em torno da maternidade sim, mas também de leis e posicionamentos governamentais. Eu creio que caberia ao estado amparar a mulher que se torna mãe. Eu quero é um ano de licença maternidade, políticas de proteção à mulher no mercado de trabalho e leis de incentivo à inserção da mesma em seu retorno. Acho justo e ainda mais acho que é o mínimo de retribuição que as mães merecem ter na sociedade. Mesmo para aqueles que acreditam terem tido uma péssima progenitora, algo precisa ficar claro: você só existe porque alguma mulher o (a) pariu. Conheço muitos homens por aí que desistiriam da missão no segundo mês de gravidez. Diante desse quadro, fica mais atraente a idéia de um aborto a fim de interromper uma gravidez indesejada? Acredito eu que sim. Mas não seria bem mais interessante o estado trabalhar para tornar a vida de uma mãe menos difícil, no lugar de continuar mantendo o aborto uma prática ilegal? Eu, pessoalmente, sou totalmente contra a idéia do aborto, pois acredito que a vida tem caminhos mais sábios que toda a minha razão. Se eu for pensar de forma cultural e social, sou contra também, pois acho que mesmo em condições seguras, o aborto é uma violência à natureza feminina antes de qualquer coisa. Sou, porém, completamente a favor do direito da mulher de não querer ser mãe e de que o estado assegure a elas o direito de preservar sua saúde no interrompimento de uma gravidez, se for essa a sua opção. Então nós, filhos de uma mãe, não nos tornemos tão cínicos a ponto de esquecermos que a situação da mulher não pode ser discutida ou pensada como a do homem na sociedade. Merecemos muito mais cuidados. Não porque somos frágeis ou porque queremos regalias, mas porque é justo que tenhamos de retorno algo mais equiparado com o quanto nos doamos.
ilustração: eric drooker
4 comentários:
Ju, muito oportuna a sua reflexão, muito legal como você se apropriou do tema, trazendo pra sua própria experiência.
Realmente o Estado deveria intervir para que a mulher que decide ser mãe possa exercer o direito à maternidade e estar em tempo integral com seus filhos, pelo menos no primeiro ano de vida. Além disso, deveria amparar as que decidem abortar.
Nossa cultura é cruel com o ser feminino, essa é a verdade. Acho que as feministas do séc. XX jamais imaginariam que a conquista de direitos fosse se reverter em mais obrigações e até opressão para as mulheres que decidem ir além na vida profissional e optam também por formar uma família. Impossível ser 100% tudo!
Achar que a solução para o impasse vai aparecer espontaneamente é ingenuidade. Isso só se resolve com políticas públicas que contemplem, preparem e apoiem as mulheres para usufruir plenamente da maternidade. E digo mais: que preparem também os homens para estar a cargo de uma família. O planejamento familiar deveria ser público e gratuito, e incluir terapia.
Isso ajudaria a resolver o problema da violência, a longo prazo. É a minha opinião. Beijocas, adorei seu desabafo :)
Ju,
Adorei ler seu texto e ele me lembrou um livro com o qual tive contato na faculdade. O nome é "Um amor conquistado – o mito do amor materno” de Elizabeth Badinter. Acho que vale a pena ler, discute muitos dos temas que vc tocou aqui! Apesar d´eu ainda não ser mãe, algumas das suas reflexões tb já foram feitas por mim, inclusive ao me perguntar: Quero ser mãe? Desejo isso?
Deixa o tempo, deixa a vida...
Beijo grande de saudade
Não poderia ser mais oportuno pra mim ler esse texto agora, Ju. Estou descobrindo tardiamente o papel dos meus pais no que sou agora. E pela primeira vez na vida MORRENDO de vontade de ir pro divã. rs
He told her that the watch would stay with her until he came back. The sound of the watch was his fine-sounding words. He promised he would come back and marry her.[url=http://www.good4shopper.com/baumemercier-watches.html]replica Baume & Mercier watches[/url][url=http://www.good4shopper.com/bell-ross-watches.html]replica bell & ross watches [/url] [url=http://www.luxucenter.com/cheap-prada-handbags.html]Prada bags[/url] [url=http://www.sunglassescool.com/fendi-sunglasses.html]fendi sunglass[/url] Rolex watches are amazing. A gorgeous Rolex watch looks great and stylish. As we all know that Rolex watches are known for its strength and endurance, that's why Rolex watches have a good reputation for so many years. And also you will see the quality and precision reflected in each Rolex watch. So, Rolex is a name that thousands of people had dreamed of.
Postar um comentário