domingo, 10 de maio de 2009

Mãe

Nada mais clichê do que dizer que quando eu era pequena queria ser igualzinha a minha mãe. Mas não dá pra fugir desse. Minha mãe era linda e adorada por todos. Tinha cabelos, olhos e a pele cor de mel. Super bronzeada e com cara de mais menina do que a idade que tinha sempre (até hoje). Eu tinha as características mais marcantes de meu pai: branca feito leite e cabelos pretos. Só os olhos eram claros como os dela e eu amava. Achava que com o sol minha pele poderia escurecer e meus cabelos clarearem. Nunca acontecia isso, é lógico. Eu só ficava vermelha e os cabelos, com muito esforço, se viam umas mechas mais acastanhadas. Quando fiquei adolescente era aquela coisa magrela. Usava óculos, tinha os dentes tortos e a pele continuava branca e os cabelos pretos. Mas minha mãe me contava de quando ela chegou do interior para morar e estudar em Salvador, muito magra e novinha, uns 13 anos, como um “patinho feio”. Ninguém olhava pra ela nesse tempo. Passaram-se uns anos, ou talvez só um ano mesmo, não me lembro mais direito, e ela foi passar as férias em Igaporã, interior dela. Nessas férias, ficou mais mulher, encorpou, os cabelos cresceram e ela ficou bronzeada de jogar bola e andar de bicicleta nas ruas. Quando voltou o belo cisne para as aulas no colégio Central, todo mundo passou a querer saber quem era a novata, que, na verdade, não era tão novata assim. E foi desse jeito que Mariluce, ou Lucinha (como todo mundo chama ela em Igaporã) se tornou uma garota popular na cidade soteropolitana, em um dos colégios também mais populares da época. Não preciso nem dizer que aos 13 anos, o patinho bizarro aqui sonhava com uma história que tivesse esse mesmo fim. Só que as histórias infantis não funcionam pra todo mundo igual. Meu cabelo continuou feio, eu continuei magra, minha pele não escurecia (e olha que passei quase um mês tomando sol todos os dias no pátio do prédio), e para completar eu virei a melhor amiga da garota mais popular do meu colégio. Linda, loira, super morena, olhos verdes e um corpo invejável. Os meninos saiam de outras escolas pra vir conhecê-la na hora do recreio. Alguns recreios a situação ficava tão ridícula, coisas como os meninos fazerem rodinha em volta dela e quando eu me dava conta estava sozinha, totalmente no escanteio da festa, que eu só continuava a ser amiga de Rita (a popular) porque ela era realmente uma pessoa adorável, divertida e nada, nadinha mesmo convencida. Mas confesso que foram dias difíceis. O fato é que eu percebi que nunca seria como minha mãe. Aceitei minha cor, meus cabelos e todo o resto. Ainda na adolescência nossos gostos, meu e de minha mãe, até eram compatíveis, mas na vida adulta nem isso perdurou. Minha mãe gosta de tudo que é colorido, eu gosto de preto, branco e vermelho. Minha mãe gosta de praia e caranguejo, eu de noite na rua ou em casa acordada e não como quase nada do mar. Minha mãe é de Iemanjá, eu não sei o meu santo, mas já me disseram que deve ser Oxum. Minha mãe gosta de farra sem limites, eu sempre fui mais chatinha e responsável. Minha mãe gosta de filhas simpáticas, eu sempre fui eu mesma, o que na maior parte das vezes não é nada simpático no conceito dela, principalmente com as amigas dela. Minha mãe é médica, eu hipocondríaca. Minha mãe é do Sol e eu da Lua, emocionalmente falando inclusive. Minha mãe é livre e independente e eu ainda sonho em ser assim um dia... Com tantas diferenças vocês poderiam pensar que nos damos mal. Totalmente enganados. Minha mãe é minha melhor amiga. Quando estamos no telefone, Martin, meu namorado, diz que não sabe diferenciar se estou falando com ela, ou com outra amiga. Ela me ensinou mais do que ninguém a aceitar as pessoas como elas são. Minha mãe sabe ver graça em todo mundo, sem preconceitos, uma alma realmente aberta, sem armas, às vezes com uma inocência quase infantil, mas de uma beleza inegável e para a qual a vida sempre sorriu de volta. É que minha mãe é assim: ela sorri para o mundo. Ela sai com meus amigos, com os dos meus irmãos, ela é a patricinha-hippie mais bacana que qualquer um poderia conhecer. Às vezes eu acho que ela aceita demais as coisas, sem brigar nunca, mas é que sou mais emburrada mesmo com tudo. E é com ela que eu aprendo que a leveza pode ser linda também, assim como ela, assim como o amor que une a gente.

 

Mãe, ano que vem, com fé, vem um presentão, no lugar de tanto blá, blá, blá.

 

Te amo infinitamente

4 comentários:

Paloma disse...

declaração linda... ;)

Anônimo disse...

Jô,
Todas essas palavras se encaixam exatamente a esta pessoa maravilhosa, amada e admirada que é a sua mãe e que eu tenho o privilégio de conviver...
Lindo depoimento!! Pq sempre me emociono com o que vc escreve?? Pq será???
ahhhh.. e feliz dia das mães!!! Bjão

Anônimo disse...

É Karynaa :)

Maitê disse...

Adorei aqui!

Parabéns.