domingo, 8 de novembro de 2009

E se tudo for por acaso?

Medo, morte, acaso, destino, escolhas, desejo. Essa é a nuvem de tags que anda se formando em cima da minha cabeça. Vocês podem pensar que são palavras desconectadas, mas para mim estão em uma interligação louca e frenética nos últimos pensamentos que têm me acompanhado. Não por acaso, obviamente, quando fui a uma grande livraria, perto da minha casa, em busca de um presente para a professora, ou melhor, cuidadora (sei lá como se chama hoje) do meu filho que fazia aniversário no dia seguinte, bati os olhos em um livretinho de um dos meus escritores favoritos e que é um explorador do tema “acaso”: Paul Auster. Este livretinho é uma seqüência de estórias/histórias “reais” (segundo o autor, mas dentro da própria obra, o que pode significar novamente ficção, vá entender!) diversas e distantes que se relacionam através de detalhes de coincidências, nós rizomáticos de uma teia de possibilidades, assim como o conteúdo que recheia as páginas de cada conto separadamente. Não, definitivamente, não foi por acaso que minha busca flutuante pelas prateleiras dos pocket books pinçou esse pedaço magro de folhinhas prensadas que atende ao nome de “O Caderno Vermelho” (The red notebook: true stories - no original). Foi pelo desejo. Humm... pelo desejo que se juntou com o acaso? E desejo junto com acaso é destino? Ou destino é independente do que se deseja? As escolhas já estão marcadas antes de as fazermos? Assim, não existiria acaso. Não existiria porque ter medo, pois a morte, que é um encontro certo, já teria hora e data marcada em nossa agenda da vida de forma irrevogável. Bom, acredito que matérias filosóficas possam dar conta de tais pensamentos, e não quero dividir com vocês minhas filosofias de botequim, pois tenho certeza que essas só meus amigos chegados, que me têm apreço a vera, agüentariam, ainda assim regado a boas doses alcoólicas. Quero fazer aqui meu próprio conto do caderno vermelho, com ou sem a licença do senhor Auster. Talvez escrevendo isso eu consiga organizar melhor minhas idéias tagueadas e a nuvem se dissipe em céu límpido, ou ao menos se precipite em chuva suave, nem fina, nem grossa, das que caiam quando eu voltava de ônibus da faculdade para casa, em dias de boa temperatura. Lá vai:

Em 1993, no final deste ano, estudando, ou melhor, freqüentando um curso para o vestibular de medicina e comunicação, conheci a turma que seria minha por mais um longo tempo e da qual fazia parte meu futuro primeiro e ex-namorado. I. tinha entrado para faculdade de Engenharia, UFBA. Era um informal gênio da física e tinha uma certa habilidade matemática também (o suficiente para ajudá-lo a ser o tal gênio em física). Não me interessei em nada por ele, quando o conheci. Nada nele se parecia com o que costumava me atrair em um garoto (tínhamos 19 anos na época). Mas ele se apaixonou por mim e, apesar dele não exercer nenhum efeito amoroso em mim, os sentimentos que ele deixou eu pensar existir nele foram arrebatadoramente apaixonantes, no meu caso. Isso não tem nenhuma importância na história, a não ser pelo fato que eu preciso deixar claro que a escolha de namorá-lo era a mais remota possível. Assim o fiz. Namoramos durante cinco anos e somente assim conheci aquele que foi meu futuro marido. A., meu futuro ex marido, era amigo distanciado de I. da época do colégio (ensino médio). A. pertenceu a turma de I. em um momento na época da escola, mas logo conheceu o rock, entrou em uma banda e deixou esta turma, da qual I. fazia parte, de lado. Mesmo assim, nos encontramos certo dia, por acaso (?), em um bar, eu namorando I. e A. com uma namorada (coincidentemente (?) o seu primeiro namoro mais sério também). Achei um casal simpático. Diferente dos amigos que I. costumava andar e que, normalmente, me deixavam, a cada tempo que passava, mais e mais entediada. Achei A. muito atraente e interessante, mas isso não foi nada que me tirasse o sono, por exemplo. Só uma constatação. Eu ainda acreditava amar meu então namorado I. e nesse tempo, amar para mim significava “só ter olhos para”. Depois de terminar o namoro com I. e me entregar a uma paixão bandida e impulsiva por uma outra pessoa (outro I. inclusive) que obviamente não durou mais do que seis meses de um caso “torto”, passei quase um ano completamente solteira. Estava realmente muito à vontade em minha nova situação quando uma festa que não deu certo me levou a outra que eu quase não ia. Por razões altamente adversas, A. estava nessa festa, no rock’n rio, chamada “Noite das Arábias” (para quem o conhece, sua presença em tal lugar parece ainda mais surreal). Lá estava também um caso fixo meu do momento. G., o tal caso, queria namorar e eu não. Nessa festa, G. resolveu desencanar de mim e arranjou outra garota para ficar. Eu, com um certo ciúme (posse, na verdade) de G., não nego, dei meu jeito de ficar com A. (que eu já tinha achado interessante, como vocês viram, há tempos atrás). Quando viu o ocorrido, G. me ligava insistindo em ir me esperar na porta de casa. Fato totalmente irrelevante também, a não ser para vocês perceberem que eu poderia ter, nesse momento, resolvido namorar com G. então. Mas fui ficando com A. e a coisa foi ganhando outra dimensão. Namoramos um ano, casamos, papel, igreja e ficamos mais quatro anos juntos. No final do nosso casamento, A. veio a São Paulo, conheceu e ficou amigo do meu atual namorado e pai do meu filho. Ainda casada com A., ele me contou que tinha conhecido Martin, que tinham conversado muito e que ele (Martin) havia se separado recentemente da então mulher (também o primeiro relacionamento sério, de morar junto - casar né?- de Martin). Passou uns meses eu e A. nos separamos. Passaram-se mais seis, sete meses e eu conheci Martin porque resolvi numa noite sair com a A. e sua atual (na época) namorada para nos conhecermos melhor. Nessa noite A. estava dando uma de cupido para Martin e a então cunhada dele. Eu andava tendo um caso com um amigo que mora no Rio. Martin poderia ter ficado com a irmã da namorada de A., mas não ficou. Eu poderia não tê-lo conhecido se, por motivos óbvios, não quisesse sair com meu ex-marido e sua atual namorada para estreitarmos laços. Neste dia pensei que Martin era alguém com quem eu gostaria de ficar. Passaram-se mais alguns meses e outro ponto no destino, outra obra do acaso, ou mais uma coincidência feliz, nos encontramos em um show da Lisergia, na Zauber. Ele estava em Salvador para tocar no festival de verão. Ali engatamos nossa primeira conversa pré-namoro, puxada pela notícia de que A. estava esperando um neném, junto com a namorada. Assim como Auster eu poderia escrever “Que coincidência (...) Minha vida tem sido repleta de acontecimentos curiosos como esse (...) O que há com o mundo que não para de me envolver em todo esse absurdo?”. O caderno vermelho tem histórias ligadas com muito mais detalhes que as minhas, mas tenho certeza que se eu procurar encontro mais um monte de detalhes nas minhas também. O que sobra é a noção de que onde eu estou hoje só foi possível com exatamente tudo que eu vivi antes e assim, provavelmente, será para toda minha vida; o que espanta é que tudo poderia ser diferente com uma simples e, na maioria das vezes, pequena mudança de planos; o que é mais curioso é a sequência de coincidências que une cada um desses caminhos escolhidos. “Do you believe that there’s some one up above? And that He has a timetable directing acts of love?” – (PULP, Something Change). Tem um novo livro de Maffesoli que eu ainda não comecei, mas o título é “O ritmo da vida”. Não sei porque intuo que nele tenha algo que caiba bem neste assunto. Paul Auster encontra, em seu caderno vermelho, uma espécie de resposta quando sua filha entoa uma canção, no conto de conclusão do livro: “it don’t mean a thing if it ain’t got that swing”. Para mim, a idéia parece atraente, que acham?

2 comentários:

m :: disse...

eu acho que tenho um certo preconceito com palavras que tratam do que vai ser: destino, acaso, coincidência.. sei lá. elas acabam me deixando confusa porque parece que eu tenho que entender, tenho que ter uma posição a respeito, tenho que conseguir ter um mínimo controle... enfim. mas ao mesmo tempo que me angustia, quando me deixo entregar a isto que parece um espetáculo, uma dança, isto que 'acontece', me pego meio que embasbacada com a beleza das coisas. dos encontros. das coincidências. da sucessão de fatos que poderia simplesmente se amontoar, mas se encaixa perfeitamente, como um quebra-cabeça daqueles de milhões de peças, que eu achava, quando era criança, que nunca conseguiria montar corretamente.

Claudia disse...

Ju
Qua máximo seu post...Bem,eu conheços 2 Is e Martin!!Eu me acabo de rir dos seus textos. Saudades de vc,figura,se morássemos próximas uma da outra seria o máximo.
bjs
cau