quinta-feira, 17 de setembro de 2009

para a chuva parar de molhar o meu amor

Tenho um pensamento cá comigo e quero saber quem compartilha dele. Penso que quem entra na chuva dos fotolog, blogs, facebooks, twiiters e companhia e fica numa tentativa inglória de não se molhar está num processo equivocado, quase esquizofrênico. O mundo do espetáculo das redes sociais cibernéticas significa exposição por sua própria natureza. Todas as fotos, os tweets, scraps, etc estão lá para serem mostrados. Mostra seu rosto, seu trabalho, seus gostos, seja lá o que for, mostra sempre. Alguém pode dizer “eu não gosto de aparecer” pensando ingenuamente que ao por fotos de seu trabalho ou de coisas que achou legal, no lugar de seu belo rostinho, está se escondendo, ou algo parecido. Nada me parece escondido e nem nada me parece tão transparente assim. Quem põe foto de si, escolhe a que está mais legal, mais bonita, mais engraçada. Quem põe foto do que gosta, sempre põe o que considera a fina flor do seu próprio gosto. Ou seja, mostramos o que queremos que seja visto. Assim nos mostramos também, é lógico, e não nos mostramos nunca. Um dia meu namorado disse que eu “pagava de gatinha” no meu fotolog. Dei uma risada sincera e disse “mas é exatamente isso”. Na verdade, não sei dizer quando nessa vida não estamos “pagando de alguma coisa”. Os jammers, assim como os situacionistas, acreditam que essa falta de “atos espontâneos” esteja diretamente relacionada com o que passamos a conhecer por “sociedade do espetáculo”. Na minha ainda superficial opinião, não é exatamente o que me parece acontecer. O que eu observo é que nós, seres humanos, sempre usamos alguma espécie de máscara na maior parte do nosso convívio social, aliás, do nosso convívio com o outro (acredito que essa história de máscara deva estar em algumas teorias psicológicas e eu esteja sendo completamente rasa falando disso, mas tentem entender que se trata apenas de um pensamento dividido, sem grandes pesquisas ou fundamentações). E mais: não vejo nenhum mal nisso. Nem nós sabemos exatamente o que desejamos o tempo todo. Nada mais normal que em nossas mediações com o outro utilizemos de artefatos psíquicos e sociais que nos permitam estabelecer o contato. Claro que existe a hipocrisia e a opressão do indivíduo, mas acredito que quando falamos em “atos espontâneos” devemos sempre ter uma postura crítica do que estamos realmente falando. E essa necessidade de manter a cabeça em constante interrogação não deve ser para nos deixar paralisados na eterna pergunta, mas para nos deixar atentos aos nossos próprios boicotes na busca de um estado de perfeição e do júbilo final. Muitas vezes é justamente esse ideal de felicidade que estanca nossos pés no meio do caminho. O sonho de uma vida melhor, em minha opinião, não deve se confundir com o ideal de uma “sociedade verdadeira”. Uma sociedade, por exemplo, mais justa (não absolutamente justa, pois não creio nisso) me parece muito mais fácil e palpável de se obter que uma sociedade mais verdadeira. Todos nós estamos inseridos nesse contexto do “Big Brother”. Mesmo quem opta por não se expor em qualquer mídia, faz esta opção para fugir da eterna sensação de estar sendo expiado. Dessa forma, admite automaticamente que a sua vida é digna do interesse alheio, como se fosse um filme, ou uma novela aos quais todos os outros indivíduos/expectadores gostariam de acompanhar. Você não desconfia que isso seja justamente o espetáculo internalizado em nossas vidas? Eu sim. Claro que também é outra postura de igual ingenuidade crer que a vida espetacularizada pelos meios de comunicação, como a conhecemos, não exerça nenhuma influência ou efeito sobre nossa sociedade. Inclusive nem acho válido tocar nesse assunto pois acredito que ele já tenha se constituído numa espécie de senso comum. Mas saindo das questões sociais, que não foi o motivo pelo qual resolvi escrever este texto, a questão do indivíduo me parece ter uma linha de raciocínio não muito divergente. A busca por uma “vida espontânea”, na íntegra, não combina com a inserção em qualquer tipo de rede social. E na Internet, cada um usa sua rede social para o tipo de exposição que quiser. Só não acho que vale criticar o uso do outro, afinal, assim como em todas as nossas relações, virtuais ou reais, todo mundo se expõe de alguma forma e nessa chuva, nenhuma forma de proteção pode salvar ninguém.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

nós nos reinventamos...

… e quanto mais eu leio, mais assombração me aparece. Estou no meio do Culture Jam – How to reverse America’s suicidal consumer binge – and why we must, Kalle Lasn. Estou completamente aborrecida e quando dei uma pausa só tinha vontade de ir no shopping comprar uma roupa nova. Estou, até agora, convencida de que a minha escolha em seguir o caminho da estética para falar da Culture Jamming não podia ser mais acertada. A veia situacionista de Lasn é uma chatice sem tamanho. Não existe na leitura dele sobre Debord nenhum senso crítico. Ah, faça-me o favor! A coisa é tão endeusada que ele, no mesmo parágrafo, cita os nomes de Guy Debord, Buda e Johnny Rotten como os profetas do apocalipse da pós-modernidade escrava do espetáculo. Acredito que nessa segunda metade do livro ele deve descrever a Culture Jamming como a ferramenta capaz de quebrar as correntes e libertar a humanidade do simulacro da “Matrix”. Novamente aqui estou eu pensando: “que porra eu faço agora com isso?”. Realmente não tenho a menor vocação para entender o que faz algumas pessoas acreditarem na salvação. Formação cristã? Algum anseio legítimo da alma? O que? Lasn acredita que somente atos espontâneos trarão a salvação. E você acredita na salvação? E em atos espontâneos? Para começar ele deveria inclusive ter definido melhor atos espontâneos. Será que a coisa é tão ingênua a ponto dele crer que atos espontâneos são só aqueles não produzidos pela mídia? Outro ponto é que percebo nessa coisa de salvação um velho pensamento diádico (só pra usar um conceito que aprendi recentemente nas aulas de semiótica hehe): “ou nos salvamos, ou queimaremos no fogo do inferno”. Já que estamos falando de salvadores da pátria, graças ao meu novo programa de mestrado, poderei tentar pensar em Culture Jamming como uma ato revolucionário por outro viés: o da estética. Espero eu que este caminho seja mais florido e feliz em minha jornada acadêmica. Sem querer levantar nenhuma bandeira, mas não consigo acreditar em revoluções que trabalham na esperança de que algum dia “o détournement do signo certo, no lugar certo, na hora certa, pode provocar uma reversão massiva de perspectivas” – Greil Marcus (situacionista). Até porque, em minha opinião, admitir que qualquer comportamento em massa seja possível é automaticamente descartar o tal “ato espontâneo”, ou seja, um contra-senso da própria filosofia do processo. Tem um pedaço do texto “O mal-estar da civilização” que Freud conclui: “Assim, não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta; curvo-me à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum, pois, no fundo, é isso que todos estão exigindo, e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes”.

Não sou uma pessimista. Não entro no time dos que não valorizam ações pequenas frente aos grandes problemas. Ao contrário. Acho é que inflacionar essas ações pode promover justamente o seu revés. A Culture Jamming tem muito a oferecer com sua arte, sua desordem, sua estética, suas intervenções para mudanças no cotidiano que, talvez, algum dia, juntamente com outros processos culturais, sociais e econômicos culminem em mudanças mais profundas. E ainda, se assim for, será apenas mais uma mudança de paradigma que antecede à sua próxima.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

e o amor, quem prescreve?

Assim como dizem que médicos que lidam com sangue e cirurgia têm um “quê” de açougueiros, penso que o lado sombra dos analistas (pelo menos os lacanianos) goste de exercer a arte da crueldade. Você chega em busca de ajuda, sai da análise se sentindo pior do que entrou e se vê de repente pensando que se desistir disso tudo é resistência e você precisa vencer isso. O analista está lá, te ouvindo, cara a cara com sua angústia e simplesmente cutuca ainda mais a sua ferida. E ele está fazendo isso “para te ajudar”...

Ontem liguei para uma analista que tive referência aqui para pedir uma indicação (uma opção bem mais barata que ela, é claro). Contei a história que me fez sair da indicação anterior dela e pedi que me indicasse alguém menos ortodoxo. Ela me respondeu que ela era muito correta para fazer isso. Que em Lacan não havia acolhimento, que a transferência deveria ser feita pelo ódio mesmo, já que o amor era perigoso e podia criar dependência...

Penso eu: isso é grave! Que lugar é esse que até os analistas estariam reservando ao amor? É disso que se trata? Um sentimento que, ao contrário de construtivo, é perigoso e causa dependência?

Eu que sempre fui muito incrédula, muito cheia de dúvidas, pessoa de pouca fé, digamos assim, só tinha uma estrela guia que me servia. Eu acreditava (ou ainda acredito?) no amor... Com o passar do tempo, as experiências, os relacionamentos, quase desacreditei, mas na verdade só fiz uma reformulação na minha forma de enxergar o amor. Antes eu via o amor de uma forma mais romântica (no sentido mais cafona de romance), de uma forma mais ingênua, mais mágica. Era interessante, mas não me serviu no mundo. Me fez sofrer e quase abdicar da minha crença nesse tal amor. Mas antes, entendi que o que eu via, o que restou depois do desencanto, ainda era amor. Era mais maduro, mais crítico, menos carente do outro, mas ainda assim amor. Era amor mesmo quando doía ou fazia doer. Era amor como quando eu brigo com meu filhote de dois anos e, na hora, é raiva mesmo, mas é puro amor. Não sei se me farei compreender, mas é raiva instrumental se alguém for capaz de entender. Acredito na raiva instrumental, no desprezo instrumental e no sadismo instrumental. E acredito que se não houver rancor, orgulho e nenhum distúrbio emocional, o que resta desses bichos instrumentais, é só amor.

Agora, me pego com essa afirmação da tal analista e sem saber direito o que pensar dela. Vou repeti-la no texto para vocês, para o conjunto do que está escrito e, principalmente, para mim: “A transferência em Lacan deve ser feita pelo ódio. O amor é perigoso e pode causar dependência”. Nesse meio, ela me disse também que não concorda com a sedução em entrevistas de analise. Até entendo o que ela quis dizer e os motivos. Também já me questionei muito sobre sedução, principalmente quando trabalhava com publicidade. Achava a sedução manipuladora e, portanto, “a malvadona da parada”. Com minha reformulação da visão de amor comecei a me achar muito purista. Como se o amor se tratasse de uma verdade maior que não pode ser maculada por nenhum sentimento inferior, principalmente qualquer manifestação da mentira. Isso me parece hoje ingenuidade. Hoje eu acho que no amor tem tudo, inclusive a mentira. A sedução me parece mais uma linha de costura que desenha o corte, junta retalhos, cose todo o tecido, mesmo quando está escondida. Acho que a frase “tapa de amor não dói” vem justamente da nossa tendência a manter o amor em uma espécie de altar. Qualquer tapa dói, mesmo de amor. Isso não significa também que onde haja dor não possa haver amor. O amor pode ser sagrado e mundano ao mesmo tempo e ainda assim vai continuar sendo o mesmo amor.

Mas voltando a analista, então com o ódio não há sedução. Fica a pergunta: por que a pessoa volta então? Masoquismo? Seja qual for o laço que fisgou esse paciente, não foi ainda assim sedução? Será que ela está certa? E quanto a minha crença no amor, é pura fixação minha? Tem alguma coisa que eu não to vendo nisso? Por que raios eu acredito até em análise com amor se o diabo da analista que estudou Lacan anos diz para mim que a transferência é pelo ódio? O amor não funciona?

Vou estar aberta para esse pensamento de agora em diante. No entanto, hoje, o que eu ainda acho é que transformar o amor em tarja preta não é a solução também. Ainda sou muito cristã e não sei, ou fui eu que pichei nos muros de São Paulo “O amor é importante, porra!” e não sei também. Mas espero que Jesus esteja certo e o carinha dos muros também. Essa frase foi pichada em vários locais, mas eu vi a primeira vez no muro do cemitério da Consolação. Acho que nenhum outro lugar seria mais significativo. É ali, afinal que tudo se junta no fim das contas, o mundano, o sagrado, a mentira, a verdade, o sublime, o instinto, a beleza e o que apodrece. E o quando junta tudo, mistura tudinho na terra, me digam o que fica?

sábado, 20 de junho de 2009

juanalândia

Na Juanalândia o tempo se comporta de uma forma bastante peculiar. Os segundos viram minutos. Minutos viram horas. Horas são dias e os dias são eternos... É um lugar mágico sim, meus senhores. Tem bonecas desenhadas em guardanapos, cadernos rabiscados com histórias inventadas na cabeça, chaves esquecidas em balcões, carros deixados nos estacionamentos, muitos livros que nunca foram lidos, músicas melancólicas, nostalgias crônicas, eterna insatisfação, momentos de tédio absoluto, horas de fantasias improdutivas, cenas de filmes de memória, profundas alegrias, tristezas sem fim...
A Juanalânida é onde eu me sinto em casa, mas também um lugar que tento abandonar... ou pelo menos deixar ao lado, em uma realidade paralela.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Encanador

Esse eu escrevi para uma amiga, há um tempo atrás... é meio novela das 7, mas publico agora justamente porque fiz pensando em animá-la :)

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Ela em seu apartamento quarto-sala-minúsculo que só cabe um computador-carroça (e só suporta o windows 98), duas camas de solteiro juntas (formando uma super king de casal), um TV 29 polegadas à prestação, algumas fotos presas na parede com durex ou cola branca mesmo, um baú de roupas, uma arara e sapatos na dispensa da cozinha, está procurando a carteira e outras bugingangas para por na bolsa, enquanto liga pra algum lugar que não atende pelo celular. Ah, a cozinha tem geladeira, na qual ela tem uma garrafa de água para visitas e a dela, para beber no gargalo mesmo. Ela pega um congelado e leva pro microondas que, esqueci de dizer, tem também (só não tem o fogão). Ela se queima quando vai tirar o congelado e deixa cair a comida no chão.

Ela: - Puta que pariu!

Ela: - E esse telefone que não atende.

Indicaram a ela um encanador pra consertar aquela torneira do banheiro que não fecha mais.

Ela: - Aluiu? Que diabos é isso?

Ela ligou pra vários, mas achou tudo muito caro. Tinha um no classificado que não era exatamente um encanador, mas o anúncio dizia: - Disque para Dido “Faz-tudo”. Mulher solteira precisando de ajuda para tarefas masculinas de pequenos reparos em casa, ligar para 8567-8797. Serviço 24 horas. Era exatamente disso que ela precisava... Tá, admitia, tinha uma aura de prepotência machista naquele anúncio, mas fazer o que se ele se encaixou perfeitamente com o que ela pensava: “nessas horas um homem em casa faz falta”.

Dido Faz-tudo (atendendo ao telefone): - Sim?

Ela: - An... é que, você é o cara que anunciou que faz pequenos consertos em uma casa?

Dido: - Eu? Ah, sim, claro!

Ela: - Faz ou não faz, meu amigo?

Dido: - Sim, senhora. Desculpa a desconcentração mas trabalho também com outros projetos... enfim, deixa pra lá... me passa o endereço da senhora por favor?

Ela: - Quanto você costuma cobrar a hora de serviço?

Dido: - Olha, não cobro por hora não. Cobro apenas 20 reais por qualquer trabalho feito. Isso porque também eu não garanto que consiga resolver o problema da senhora. Sabe como é? Eu sou artista, esse trabalho é só um bico pra ajudar a pagar as contas... a senhora sabe, quadros não vendem tanto assim...

Ela: - Tá, tá... na situação atual eu não tenho muitas opções mesmo. Seu preço tá legal, mas sem resultados, sem pagamento não é isso?

Dido: - Sim, claro. Fechado então.

Ela passa o endereço e Dido marca para às 19:00 horas, quando ela chega do trabalho.

Ela passa um dia infernal.

Ela: - Meu chefe quer comer meu cú!

Amiga (rindo): - Nisso eu acredito mesmo!

Ela: - Engraçadinha... ele é gay. Só serve bunda de homem

As duas riem.

Amiga: - Aliás, você anda mesmo precisando arranjar alguém, hein?

Ela: - Nada! To muito bem sozinha. Namorados me deixam maluca.

Amiga: - Hum, sei não, acho que não tem como te deixar pior do que você já é. E depois, eu não falei em namorado... Ah, vai! Um casinho não faz mal a ninguém...

Ela: - Isso é verdade

Elas saem do trabalho e caminham em direção ao metrô. Cada uma toma seu próprio rumo.

Ela chega em casa. Dido já está na portaria com uma caixa de ferramentas que mais parece uma caixa de pintor, toda suja de tinta das mais variadas cores. Eles sobem pelo elevador de serviço. De repente ela se sente incomodada de estar sozinha naquele elevador com ele. Parece que Dido era mais parecido com seu ex-namorado que com o encanador que ela imaginava chamar para consertar sua pia.

Ela: - Então seu Dido...

Dido: - Por favor, tira o “Seu”.

Ela (indignada): - Tirar o meu o que????

Dido: - Calma, calma! Nossa, você não entendeu. Eu quis dizer que pode me chamar de Dido somente...

Ela: - Ah, claro, desculpa. É que meu dia foi terrível. Desculpa... (que louca eu!!! Que vergonha!!)

Dido: - Tudo certo... (mas ele ri por dentro pensando que ela devia tá era muito carente, isso sim!)

Ele vai chegando e mexendo na pia da cozinha. Ela estranha o procedimento já que o problema é na pia do banheiro. Ele parece brigar com as ferramentas, mas ela imagina que talvez o problema seja então maior do que ela pensava já que ele parece ter que mexer em tudo, até na pia da cozinha...

Ela: - Vem cá, a coisa tá tão feia assim? (mas até que esse Dido é bem bonitinho, hein?)

Dido: - Não, só vou dar uma apertadinha aqui e tá tudo certo. (cliente gostosa essa)

Ela: - Como assim? Você vai apertar a pia da cozinha e vai consertar a do banheiro?

Dido: - Banheiro??? Por que você não disse antes?

Ela: - Eu não acredito!!! Por que eu não chamei um encanador??? Você está tentando sabotar a minha casa, é isso? Você acha que isso aqui é uma instalação seu artista plasticozinho de quinta???

Dido (sendo muito irônico): - Quanta descompostura minha senhora, tsc, tsc... qual será o motivo de tanta irritação? Você tem namorado?

Ela: - Ah, que abusado!!! Saia já da minha casa!

Dido: - Olha, vamos parar com isso. Me desculpa, eu só respondi a altura das suas ofensas, mas desculpa mesmo. Eu vim aqui pra resolver seu problema, hã, quer dizer, o problema da sua pia... e eu posso fazer isso fácil, o que te pouparia mais irritações ainda. Só pensei que era a pia da cozinha... eu nunca te disse que era profissional. Mas vai dar tudo certo, acredite.

Ela: - Tá... desculpa também. O banheiro fica na porta da esquerda.

Dido consertava a pia e não conseguia deixar de perceber um pequeno varal com umas cinco calcinhas. Três delas eram de algodão, lisas, normais de quem não tem ninguém pra mostrá-las. Mas uma era incrivelmente sexy. Nada proposital, mas simplesmente era assim: naturalmente excitante. Era uma pretinha sem laços, nem flores, mas com uma tira mais fininha nas laterais e toda em tecido de tela. Aquela cliente gostosa vestida nela, aliás tirando ela, era uma visão no mínimo interessante, aliás interessantíssima.

Ela se encostava no sofá e tirava os sapatos. Olhava Dido de longe e pensava que precisava urgente sair de férias. Precisava conhecer pessoas. Pessoas diferentes, sei lá. As coisas andavam muito chatas em sua volta. Ela queria mudar de contexto, era isso. Achava que uma bolsa para estudar na Europa era uma opção excelente.

Dido tinha um rosto bem típico de sua carreira: barba, óculos e um olhar de menino carente. Mas o corpo não condizia com nada daquilo. Dido tinha mãos grandes e dedos fortes, um antebraço com algumas tatuagens de ninfas. – Quem em sã consciência tatua ninfas no antebraço? Só pode ser problemático esse cidadão... mas eram bem bonitos os contornos dos seus braços, sem músculos desenvolvidos, apenas bem torneados, desenhando uma força de homem na medida certa para segurar um corpo de mulher. E pensamentos assim começavam a provocar um misto de excitação e incomodo nela.

Dido: - Acabei! Pode vir ver. Tá tudo certo agora e você nem vai precisar trocar peça nenhuma.

Ela: - Nossa! Que maravilha!

Dido: - 20 reais ou um chopp no bar aqui do lado.

Ela: - O que?

Dido: - Brincadeira. Olha, guarda meu telefone pra sempre que precisar.

Ela (pagando): - Ótimo. Obrigada e pode deixar que eu te recomendo também.

Dido vai embora pensando que devia ter tentado comer ela de qualquer jeito. Ela o leva até a porta. Fecha imaginando ele a derrubando no sofá, colocando a mão por dentro do seu vestido e pegando em sua cintura... antes da melhor trepada da sua vida.

domingo, 10 de maio de 2009

Mãe

Nada mais clichê do que dizer que quando eu era pequena queria ser igualzinha a minha mãe. Mas não dá pra fugir desse. Minha mãe era linda e adorada por todos. Tinha cabelos, olhos e a pele cor de mel. Super bronzeada e com cara de mais menina do que a idade que tinha sempre (até hoje). Eu tinha as características mais marcantes de meu pai: branca feito leite e cabelos pretos. Só os olhos eram claros como os dela e eu amava. Achava que com o sol minha pele poderia escurecer e meus cabelos clarearem. Nunca acontecia isso, é lógico. Eu só ficava vermelha e os cabelos, com muito esforço, se viam umas mechas mais acastanhadas. Quando fiquei adolescente era aquela coisa magrela. Usava óculos, tinha os dentes tortos e a pele continuava branca e os cabelos pretos. Mas minha mãe me contava de quando ela chegou do interior para morar e estudar em Salvador, muito magra e novinha, uns 13 anos, como um “patinho feio”. Ninguém olhava pra ela nesse tempo. Passaram-se uns anos, ou talvez só um ano mesmo, não me lembro mais direito, e ela foi passar as férias em Igaporã, interior dela. Nessas férias, ficou mais mulher, encorpou, os cabelos cresceram e ela ficou bronzeada de jogar bola e andar de bicicleta nas ruas. Quando voltou o belo cisne para as aulas no colégio Central, todo mundo passou a querer saber quem era a novata, que, na verdade, não era tão novata assim. E foi desse jeito que Mariluce, ou Lucinha (como todo mundo chama ela em Igaporã) se tornou uma garota popular na cidade soteropolitana, em um dos colégios também mais populares da época. Não preciso nem dizer que aos 13 anos, o patinho bizarro aqui sonhava com uma história que tivesse esse mesmo fim. Só que as histórias infantis não funcionam pra todo mundo igual. Meu cabelo continuou feio, eu continuei magra, minha pele não escurecia (e olha que passei quase um mês tomando sol todos os dias no pátio do prédio), e para completar eu virei a melhor amiga da garota mais popular do meu colégio. Linda, loira, super morena, olhos verdes e um corpo invejável. Os meninos saiam de outras escolas pra vir conhecê-la na hora do recreio. Alguns recreios a situação ficava tão ridícula, coisas como os meninos fazerem rodinha em volta dela e quando eu me dava conta estava sozinha, totalmente no escanteio da festa, que eu só continuava a ser amiga de Rita (a popular) porque ela era realmente uma pessoa adorável, divertida e nada, nadinha mesmo convencida. Mas confesso que foram dias difíceis. O fato é que eu percebi que nunca seria como minha mãe. Aceitei minha cor, meus cabelos e todo o resto. Ainda na adolescência nossos gostos, meu e de minha mãe, até eram compatíveis, mas na vida adulta nem isso perdurou. Minha mãe gosta de tudo que é colorido, eu gosto de preto, branco e vermelho. Minha mãe gosta de praia e caranguejo, eu de noite na rua ou em casa acordada e não como quase nada do mar. Minha mãe é de Iemanjá, eu não sei o meu santo, mas já me disseram que deve ser Oxum. Minha mãe gosta de farra sem limites, eu sempre fui mais chatinha e responsável. Minha mãe gosta de filhas simpáticas, eu sempre fui eu mesma, o que na maior parte das vezes não é nada simpático no conceito dela, principalmente com as amigas dela. Minha mãe é médica, eu hipocondríaca. Minha mãe é do Sol e eu da Lua, emocionalmente falando inclusive. Minha mãe é livre e independente e eu ainda sonho em ser assim um dia... Com tantas diferenças vocês poderiam pensar que nos damos mal. Totalmente enganados. Minha mãe é minha melhor amiga. Quando estamos no telefone, Martin, meu namorado, diz que não sabe diferenciar se estou falando com ela, ou com outra amiga. Ela me ensinou mais do que ninguém a aceitar as pessoas como elas são. Minha mãe sabe ver graça em todo mundo, sem preconceitos, uma alma realmente aberta, sem armas, às vezes com uma inocência quase infantil, mas de uma beleza inegável e para a qual a vida sempre sorriu de volta. É que minha mãe é assim: ela sorri para o mundo. Ela sai com meus amigos, com os dos meus irmãos, ela é a patricinha-hippie mais bacana que qualquer um poderia conhecer. Às vezes eu acho que ela aceita demais as coisas, sem brigar nunca, mas é que sou mais emburrada mesmo com tudo. E é com ela que eu aprendo que a leveza pode ser linda também, assim como ela, assim como o amor que une a gente.

 

Mãe, ano que vem, com fé, vem um presentão, no lugar de tanto blá, blá, blá.

 

Te amo infinitamente

terça-feira, 28 de abril de 2009

a beleza e o exterior

Em o Retrato de Dorian Gray, Wilde escreve:

“A beleza, a verdadeira beleza, termina onde começa uma expressão intelectual. A inteligência é, em si, uma espécie de exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto. No momento em que a pessoa senta para pensar, torna-se toda nariz, ou toda testa, ou qualquer coisa horrível”

Já em Platão somente as forças do intelecto seriam capazes de nos conduzir ao mundo das verdades ideais (Santaella). O belo nas artes, ou na natureza seria sempre uma imitação do belo eterno, que não pertenceria ao mundo humano, onde tudo é mimese. Mas a busca da arte seria justamente a tentativa de alcançar este Belo. Já para Aristóteles, o importante seriam os benefícios morais que a arte poderia trazer. Diferente de Platão, “Aristóteles depreciou o papel que a beleza e o amor erótico desempenham na discussão da arte” (Santella para tudo).  Para Santo Agostinho, na medida em que a arte concorde com os preceitos da fé, ela estaria justificada. Citando Umberto Eco, Santaella fala de Santo Tomás de Aquino. Não é porque o nome dele é idêntico ao do meu filho, mas simpatizei demais com as idéias aquinianas.

“Ele entendia a beleza como uma propriedade transcendental e constante do ser. Ser é aquilo que pode ser visto como belo. Todos os seres contêm as condições constantes da beleza, uma vez que o universo, como obra de seu criador, é necessariamente belo, uma enorme sinfonia de beleza.” (Santaella novamente)

Para ele, o belo é por sua própria natureza prazeroso, desperta desejo e produz o amor, enquanto a verdade é uma luz para fazê-lo brilhar “porque a mente gosta de luz e inteligibilidade”.

O Renascimento, no entanto, retoma a idéia do Belo como separada da esfera moral.

Tenho estudado essas coisas aí. Ainda não tenho muita propriedade do assunto não, mas quero dividir um pensamento com vocês. Sempre tive muito interesse em estética. Estética da Comunicação foi minha disciplina preferida na graduação. Gosto das teorias da arte e tenho mais facilidade de entendê-las do que compreender estética como filosofia. É muito complexo pensar nesses termos. Sempre tem aquela discussão terminada com a frase: “gosto não se discute”. Sócrates pergunta a Hípias de Élis: Como tu fazes, para saber quais as coisas que são belas e quais as coisas que são feias? Vejamos, serias, tu, capaz de dizer o que é o Belo? Lembro pequena, quando brigava com meu pai para que ele me deixasse ouvir Geraldo Azevedo em paz, sem suas críticas. Ele concordava que era melhor do que ouvir axé, mas acrescentava algum comentário sobre meu mau gosto. Eu retrucava com o velho “gosto não se discute” e ele dizia: “Quem te disse? Bom gosto se discute sim. Mau gosto é que realmente não tem discussão”. Ele tentava me explicar que existiam particularidades que faziam o belo assim o ser, mas eu era uma menina imatura e teimosa pra entender. Duas características cruciais na formação de uma pessoa estúpida.

Hoje estou correndo atrás do prejuízo. Tentando descobrir se vou ser capaz de argumentar a favor ou contra essas explicações passadas... Sempre pensei que a inteligência fazia as pessoas mais velhas serem mais bonitas. As jovens não. Estas podiam ser burras feito portas pois a beleza dos corpos por si, somada à luminosidade da juventude seriam mais que suficientes para espalhar prazer ao mundo. Concordo com Wilde que a juventude é um trunfo, mas quando ela acaba acredito que a inteligência e a experiência podem dar conta do recado também. É mais difícil, mas acredito possível. Outra coisa que penso sobre a beleza é que nunca achei que ela estivesse nesse mundo “a passeio”. Vejo uma função no belo. Ele tem o papel de dar alegria aos sentidos. Isso, para mim, é importante demais nessa vida. Mesmo se tratando apenas da beleza física, tão vulgarmente tratada como superficial. Acontece que o ser humano tem inabilidade com tudo que confere poder. E assim como a riqueza, a inteligência, o carisma, a beleza também tem seu lugar como um poder mal utilizado. Desperdiçado por quem a detém e invejado por quem não considera a possuir. “Só as pessoas superficiais é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível...”, diz Wilde. Se você quiser dar uma interpretação moralista, vai chamar Wilde de escroto, fascista. Mas se baixar as armas pode enxergar o que existe de intrigante nessa colocação. As aparências só são superficiais se assim a tratarmos. Claro que acredito em analises aprofundadas, trabalhadas arduamente pelo intelecto. Mas acredito também que cada alma tem sua forma única de absorver o mundo à sua volta. Creio muito que a algumas pessoas é dada a habilidade sutil e refinada de conseguir absorver e compreender o mundo visível como um símbolo que reúne toda profundidade e riquezas de informação em sua mera aparência. Respondendo à Sócrates: pra mim belo é o que é completo (mesmo que suscite novos complementos criativos), o que dialoga com esse seu todo e traduz esse processo em deleite genuíno, que desafia o tempo, para o seu receptor, com o potencial inerente de provocar mudanças de qualquer ordem e intensidade neste.

Um belo dia pra vocês